Há muito tempo sinto vontade de dizer o que significa para mim fazer parte do Grupo Casarão de Poesia...
Pois, bem... Fiz então uma brincadeirinha...
Sabe, vez por outra acredito em destino...
Não sei, mas é que sinto uma certeza de que tudo o que ando descobrindo e vivendo só podia já está escrito em algum lugar.
Ah! Sei lá, de repente tava só rabiscado em algum papel de pão que o senhor deus esqueceu perto da radiola, aquela que ele comprou no sebo de Francisco, que tocava uma sambinha cheio de "squiron-don" em uma certa tarde cheirosa a chuva... Sabe como é: tarde chuvosa, disco na vitrola, pronto! O homem, "ops!", senhor deus - o cara - se inspirou. Ou você acha que ele também não se inspira? Ora, a inspiração foi tão grande que ele não se conformou em fazer qualquer coisinha costumeira a deuses em dias de inspiração... De jeito nenhum!
Ele sentou num tamborete que tinha assim pertinho da janela e que dava bem pro meio do pedaço do céu que ele usava pra rascunhar suas obras e começou a matutar:
- Hôme! Acho que vou fazer um arco-íris bem grande e de cores bem fortes...
Depois de acabado, senhor deus viu que não era isso o que ele tava querendo.
Continuou por ali, sentado, vez por outra um golinho de café, quando alguém bateu a porta. E não é que era Ana!
- Ôxi, Ana... Aparecesse, foi? Mas, criatura tu tava sumida! Quem teve aqui ontem perguntando por tu foi Gorete e Imaculada... Onde era que cê tava, hein?
E foi aí que Ana explicou que tava muito feliz com tudo o que ela já havia conquistado, com o carinho das pessoas que acreditavam nela, mas há dias sentia uma vontade de fazer algo diferente por um lugarzinho meio escondido, mas muito especial.
- E que lugar é esse, Ana?!
- Olhe senhor deus, num sei se o senhor vai lembrar, mas é um cantinho que o povo achou por bem chamar de Currais Novos...
Senhor deus, no mesmo instante, franziu a testa e olhou pra Ana dizendo:
- Ana, Ana, eu sei que já criei coisa demais e por isso às vezes tenho uns esquecimentos, mas pelo amor de deus, quer dizer, pelo amor meu (danado é!), tu não tá falando daquele lugar onde o doido de Dona Venera* nasceu? Conheço demais, que é que tem Currais Novos?
- Pronto! Esse mesmo! Pois é que desde que o doido de Dona Venera foi embora que o povo por lá anda meio que sentindo falta de alguém que mexa com essas coisas, o senhor sabe, com essa tal de poesia... É que parece que a cidade andou crescendo, crescendo, mas esqueceu de falar e cantar as belezas da terra e do povo, sabe? E aí eu pensei: será que num tá na hora de fazer nascer naquela terra alguém assim, com essa alma cheia de vida, um certo gosto pra boemia e ao mesmo tempo esse desejo de levar a palavra falada e cantada pra outros cantos?
Nessa mesma hora, senhor deus deu foi um pulo do tamborete, quase quebra o copo de café e disse:
- Era isso, Ana! Era isso que eu tava precisando! Olhe, Ana, deu certinho, viu? Do jeito que hoje eu tô inspirado e só pensando em alguma coisa que eu podia fazer de diferente, de especial mesmo, pronto! E tu sabe que eu num vou gastar meu tempo e minha inspiração com pouquinha coisa, não? Vou nada! Peraí...
Senhor deus foi lá dentro e voltou com um saco na mão e explicou a Ana que ali era um restinho dum barro muito bom, que ele guardava só pra fazer pessoas assim, especiais e criou essas criaturas que cresceram, rumaram pelos mesmos caminhos da arte e se juntaram para formar o que hoje chamam de Grupo Casarão de Poesia...
Dizem por aí, pelas esquinas celestiais, que desde esse dia o senhor deus baixou uma lei lá no céu: nos dias em que o Grupo Casarão de Poesia se reúne aqui embaixo pra recitar e cantar, o senhor deus fecha as portas de casa e diz a Pedro que não abra a porta pra ninguém, a não ser em casos graves e fica lá, bem quietinho, vendo e escutando esse povo do Casarão, todo orgulhoso da sua criação. Vez por outra, transbordando de emoção, diz:
- Êta! Povo bonito, meu deus! Ôxi, quer dizer: Êta! Povo bonito, eu! (danado, é!)
(O Doido de Dona Venera é ninguém menos que um dos grandes poetas currais-novenses e referencia literária para o GRUPO CASARÃO DE POESIA, o poeta José Bezerra Gomes)